A obediência é o fruto da fé

Ao reunirmos em uma série, estudos histórico-biográficos de vultos como Abraão, Isaque, Jacó e José, visamos não somente pesquisar o acervo de dados que a Bíblia em seus registros nos pode oferecer, mas também, e especialmente, a contribuição substancial de cada um pelo seu testemunho. Essa análise biográfica nos permitirá conhecer as diferentes características desses patriarcas, o papel de cada um, desenvolvido na cadeia histórica e profética, bem como a presença de Deus em sua auto-revelação abençoadora a "todas as famílias da terra" (Gn 12.3). Não desprezamos os dois notáveis que antecederam a esse grupo, objeto de nosso estudo, como Enoque e Noé. Nossa preferência deve-se à cadeia familiar formada pelos patriarcas da linha de Abraão citados. Começaremos como é natural, pelo "pai de Multidão". (Gn 17.5). Descendente de Sem, filho de Noé, Abraão é da nona geração semita; nascido na Mesopotâmia, em Ur dos caldeus, entre 2000 a 1800 AC, foi chamado por Deus para se constituir em o "pai de todos os que crêem", (Rm 4.11). Morreu em ditosa velhice aos 175 anos. (Gn 25.7-8). Dentre as suas qualificações, destaquemos as seguintes:

Profeta e intecessor
Convém recordar que unia qualificação espiritual que é atribuída a Abraão é a de profeta e, como tal, faz uma "ponte" entre Deus e o rei filisteu Abimeleque. Abraão intercedeu por Abimeleque e este alcançou condições de ser pai (Gn 20. 6-7, 17). Conhecemos também seu papel no episódío de Sodoma e Gomorra. (Gn 18.17, 22 e ss). (Conferir Amos 3.7). Dentro do plano de Deus nós, todos os crentes, devemos viver preparados para ser unia bênção na nossa geração, no momento e lugar por Ele indicados.
Amigo de Deus
Tiago faz referência a registros no Antigo Testamento, segundo os quais Abraão foi considerado amigo de Deus (Tiago 2.23, II Crônicas 20.7; Isaías 41.8). Essa não era simplesmente uma designação genérica. Trazia em si significados de tratamento perso­nalizado, que podem ser traduzidos por: LEALDADE - INTIMIDADE - DEPENDÊNCIA. Lealdade era requisito para o estabelecimento de uma aliança. E, sabe-se que Abraão participou de aliança com Deus. (Gn 15.18). Considerado nessa aliança, o Senhor não deixou de revelar seus segredos a Abraão. (Gn 18.17-18). No momento da escolha de esposa para Isaque, evidencia-se a dependência de Abraão da direção do Senhor, quer direta, ou indiretamente, através de seu fiel mordomo Eliezer. (Gn 24). A bênção de Abraão que chegou até nós, torna-nos amigos do Senhor Jesus. (Gálatas 3.14; João 15.15).
Dizimista
Digno de nota é o fato de ter Abraão se tornado não somente o "pai de todos os que crêm", mas também ter sido o primeiro homem a compreender e a praticar o dizimo, como sinal de gratidão ao Criador pelas bênçãos materiais. Como sabemos, o dízimo oferecido pelo patriarca era um procedimento espontâneo, ditado pela "Lei" do coração, por causa da fé, e sem qualquer disposição compulsória. E é isto que tem valor diante de Deus. Paulo afirma que "Deus ama a quem dá com alegria.” (II Coríntios 9.7b). O comportamento de Abraão nesta questão é pedagógico, mas já em si perfeito. Ele deu o seu dízimo de tudo e não apenas de uma parte ou do saldo líquido de sua administração naquele episódio. "E de tudo lhe deu Abraão o dizimo. " (Gn 14.26b). Ofertas parciais não são dizimo. Se temos a bênção de Abraão, conforme Gálatas 3.14, devemos imitá-lo também quanto ao dízimo. É estranho e contraditório ser crente, mas não oferecer a Deus o dízimo, o qual não provém da Lei, mas da fé.
Homem que obedecia
O autor da Carta aos Hebreus ao referir-se a Abraão como homem de fé, deu como primeiro destaque sua decisão e prática após o chamado de Deus-.... "partiu, sem saber aonde ia.” (Hebreus 11.8 b). Aliás, segundo C.H. Mackin­tosh, comentando Abraão, a "obediência é o fruto da fé.” Quando da aliança que estabeleceu como sinal a circuncisão, (Gênesis 17.10-11). Abraão cumpriu a ordem divina sem deter-se: "naquele mesmo dia, como Deus lhe ordenara.” "a obediência imediata é o único tipo de obediência que existe.” O mais tocante ainda é a jornada de Abraão a Moriá, em obediência ao Senhor: a caminhada é feita em silêncio. Abraão emocionado, mas não vacilante, anda ao compasso do suave ruído dos pés do menino na trilha pedregosa que conduzia ao cume do monte. Na voz melodiosa de seu filho querido, Isaque, quebra-se a monotonia coma abordagem lógica: "Eis o fogo e a lenha, mas onde está o cordeiro para o holocausto?...” a obediência a Deus precisa, quantas vezes, superar a nossa própria lógica!
O crente Abraão (Gl 3.9)
A figura de Abraão cresce quando ele é olhado do ponto vista da fé. É realmente a sua nota biográfica mais significativa. Serviu para ilustrar a vigorosa argumentação de Paulo na sua doutrina da justificação pela fé, tema central da carta aos Romanos. Inspirou Tiago quando preferiu o enfoque das obras que evidenciam a fé - traço marcante que impulsionava o comportamento do patriarca. (Gn 15.6; Rm 4.1-3 e Tg 2.21-23). O ponto alto está em que Abraão foi justificado, pela fé, antes que houvesse Lei. E por isso se tornou o pai de todos os que crêem. (Rm 4.11).
Abraão não foi, contudo, um homem perfeito, sem pecado. Nem sempre soube esperar. O tempo de prova, antes do nascimento de Isaque, de mais de 10 anos, à espera do descendente parecia-lhe longo e, surgiu Ismael, de Hagar, uma escrava egípcia. Não era esse o caminho e os problemas vieram. Sempre corremos o risco de problemas, quando não conseguimos aguardar o tempo de Deus. Ao chegar a Canaã e logo depois ao Neguebe, vindo de Harã, deparou-se com um tempo de fome na terra que Deus lhe mostrara. Ali construiu altares de adoração, mas por pouco tempo. Desceu ao Egito e teve problemas. Voltou daquela terra rico mas lá não edificou nenhum altar ao Senhor, O Egito não era o seu lugar. A maior riqueza é a comunhão diária com o Senhor. O "Egito" nunca será solução para as provas que nos ocorrem na "terra" da proposta divina para nossas vidas. Todavia, essas experiências não ofuscam o brilho do seu testemunho de grande fé quando ofereceu Isaque, em figura, porque cria que Deus é poderoso para até dos mortos ressuscitar o herdeiro prometido. A frase que se tornou a mais comovente nota no episódio da oferta de seu filho requerido por Deus é: "Deus proverá para si meu filho, o cordeiro para o holocausto.” (Gn 22. 8). E desde aquele dia se tornou proverbial a afirmação: "No monte do Senhor se proverá.” (Gn 22.14)
Rogério Loureiro

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