Congresso discute mais projetos sobre união homoafetiva

Doutor Britinho, pai do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Ayres Britto, era um juiz muito conhecido em Propriá, município de 28 mil habitantes a 80km de Aracaju. João Fernandes de Britto, como assinava na Corte sergipana, criou os 10 filhos em uma casa espaçosa, grande o suficiente para receber sobrinhos e agregados da família. O pai de Ayres Britto, embora poeta, era conservador. Coube à mãe do ministro, Dalva Ayres de Freitas, compartilhar com os filhos a influência de seu “espírito aberto e cabeça arejada”. Tocava piano, violão e gostava de cantar, se recorda o ministro.
Aos 94 anos, dona Dalva acompanha as decisões do filho nas sessões do Supremo. Aprovou o voto que reconheceu a aplicação dos direitos civis entre pessoas do mesmo sexo unidas por uma relação homoafetiva. Para se afastar da efervescência que seu entendimento causou entre homossexuais e heterossexuais, o ministro deixou Brasília para passar o Dia das Mães ao lado de dona Dalva, em Sergipe. Sua mulher e dois dos cinco filhos também estarão na comemoração familiar.
Filho de um juiz conservador, Ayres Britto aprendeu com a mãe a encarar a vida de uma forma mais humanizada
Apesar de ser dele o texto mais difundido em sites, blogs e microblogs brasileiros, o ministro do Supremo não quer trazer para si a responsabilidade da decisão histórica. Divide o mérito com os colegas que também votaram pela igualdade de direitos na união afetiva entre pessoas do mesmo sexo. Mas além da decisão, foi o caráter humanizado de seu voto que chamou a atenção da sociedade civil. Versos de Caetano Veloso e dizeres do médium Chico Xavier estão mesclados entre filósofos e cientistas que sustentam a argumentação do ministro. Ayres Britto costuma dizer que, onde tem lição de vida, ele vai atrás para tomar suas decisões.
Ciúmes
A reação da sociedade às palavras do ministro despertou o ciúme do Legislativo, que há muito retém a atenção popular apenas pelos registros de conduta negativa. O magistrado, no entanto, afirma que não é intenção do Judiciário ofuscar as casas de leis, mas pondera que o povo é quem tem se aproximado. “Como a sociedade chegou bem mais perto do Supremo, o Supremo chegou mais perto da sociedade.”
A fuga do juridiquês, aliado à temática do amor, deu popularidade ao voto. A familiaridade com a poética literária foi conquistada graças ao hábito de ler e escrever sobre assuntos que escapam à rotina dos textos do direito. Mas, além dos escritos artísticos, Ayres Britto dedica tempo a estudos da espiritualidade. Completando o binômio do bem viver, resumido no corpo e na mente sã, o ministro revela veia esportista. Tem a rotina de correr 3km e andar outros três. Vascaíno, gaba-se de ser um bom futebolista, na posição de meio-campista “avançado”.
Ayres Britto é o próximo na linha de sucessão da presidência do Supremo. Assumirá o comando da corte no ano que vem. Mas o ministro, que tem 68 anos e completará 69 em novembro, pode ficar apenas sete meses no posto pois há previsão de que se aposente em novembro de 2012, quando completar 70 anos.
CONGRESSO DISCUTE PROJETOS
Diante da cobrança de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), que reconheceram a existência da união estável entre casais gays, o Congresso deve chamar para si a responsabilidade de discutir amplamente os direitos dos casais homossexuais. A senadora Vanessa Grazziotin (PCdoB-AM) vai propor um requerimento de urgência para a tramitação do projeto da colega Marta Suplicy (PT-SP) que criminaliza a homofobia. A proposta da parlamentar petista, que voltou a ser apreciada pelo Senado em fevereiro, prevê a possibilidade de padres e pastores pregarem contra à união homossexual em igrejas e templos, sem que estejam sujeitos às penalidades impostas pela legislação. Só na Câmara, há, atualmente, oito projeto em tramitação que tratam de direitos da união homoafetiva.
Correio Braziliense

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