O rico e o pobre se encontram; a todos o SENHOR os fez

Um mundo novo é o mundo da criança que entra em idade escolar. Na verdade a escola é um lugar onde a criança começa, mesmo sem entender, observar que existem desigualdades na sociedade. Nesta idade uma criança é tremendamente sensível à vergonha da pobreza quando ela se compara aos colegas mais bem vestidos e que podem comprar bombons e brinquedos diferentes. Já escutei inumeráveis e pungentes reclamações daqueles que sofreram a miséria na sua infância e todas as afrontas que ela desencadeia.
Uma mãe, abandonada por seu marido, tem uma dívida tão grande no armazém que não ousa mais ir lá. No entanto, é preciso alimentar as crianças. Então, envia a sua filhinha. Esta sabe o que a espera e, antes de qualquer coisa, se recusa. Porém a mãe a repreende! Ela se sente culpada por desobedecer e vai. "Você tem dinheiro?" pergunta-lhe o dono do armazém. "Volte então para apanhá-lo em casa; não lhe darei nada se você não tiver dinheiro." A menina não pode responder nada; vai embora, chorando. Um terrível sentimento de culpa enche o seu coração. Ela se sente culpada por não ser como as outras meninas que vão ao armazém; sente-se culpada por ser pobre. Ela vagueia pelas ruas, remoendo ainda a culpa atroz que sentirá ao ver a sua mãe chorando ou prevendo a repreensão que sofrerá quando entrar em casa de mãos vazias.
O texto acima não foi escrito por um brasileiro. Foi escrito pelo Suiço Paul Tournier.  Todavia esta é uma realidade vivida em vários lugares deste Brasil a fora. E a situação descrita acima eu já vivi. Fico as vezes pensando no que é a fome e o que homem é capaz de fazer para saciá-la. Uma pessoa que tem fome perde tudo o que lhe resta. Perde a vergonha, o medo, a timidez e vai perdendo. A escassez de dinheiro causa nas pessoas uma insegurança uma incerteza e nos mais fracos uma vontade de morrer. A pobreza é uma situação difícil de ser encarada. As vezes chego a pensar que as origens da teologia da prosperidade está exatamente aí. No sentimento de castigo que brota no coração daquele que não tem recursos financeiros suficientes para suprir seus desejos. Parece estar embutido nesta teologia que ser pobre é uma condenação terrível e que ser "rico" é a única forma de escapar deste mal. Não existe nenhum mal em ser pobre assim como não existe nenhum mal em ser rico. O rico e o pobre se encontram; a todos o SENHOR os fez. Provérbios 22:2. O problema é quando estas situações começam a confundir a pessoa. Em alguns casos o problema chega a ser existencial e a vida deixa de ter sentido. Vencer é a palvra de ordem para os cristãos. Como um cristão pobre pode dizer que é vencedor? Esta é a confusão que permeia o pensamento dos crentes incautos. Como um crente pode dizer que Deus é com ele se ele não tem dinheiro? É exatamente aí que os teólogos da prosperidade entram. É como se eles soubessem exatamente o que é necessário fazer para ser feliz. E a receita é aparentemente simples. As perguntas vêm do pulpito como um míssil Tomahawk com endereço certo para alcançar resultados previstos. Perguntas do tipo: Você quer ser feliz? Você quer ser cabeça ou cauda? Você está sofrendo? São algumas perguntas do repertório dos vendilhões. Induzir o povo a campanhas sem fundamento também é uma das estratégias usadas como: Campanha dos sete tesouros escondidos, Campanha desvendando o maná, Derrubando os muros da pobreza, Sete semanas de colheita e assim por diante. O que está por trás disto tudo? Está a psicologia de um vencido. É a psicologia daquele que sabe o que é ser pobre e as consequências causadas por esta condição. A maioria dos teólogos da prosperidade sabe que a coisa que todo mundo mais odeia não é a condição de não ser salvo mas a condição de ser pobre. E neste caso não é necessário ser Deus para saber o que as pessoas precisam. Se por um lado estes pastores da prosperidade sabem o que querem os frequentadores destas igrejas também sabem. O detalhe é que quem dá ao pregador da prosperidade é quem não tem e corre o risco de não receber o que Deus não prometeu. E neste caso a prosperidade chega mais rápido ao que prega. Pregar é bom.
Por que tudo isto? Uma das razões está no começo deste texto:  Ela se sente culpada por não ser como as outras meninas que vão ao armazém; sente-se culpada por ser pobre. Desconhecem o poder libertador de Deus. E acabam se entregando numa relação promiscua corroborada pelo chavão antigo que diz: é dando que se recebe.
A verdadeira culpa não reside no fato de alguém ser pobre. A verdadeira culpa reside na desobediencia continua e deliberada a Deus. Muitos que frequentam as igrejas que pregam a teologia da prosperidade poderão um dia encontrar tudo o que querem sem, contudo, se encontrarem com Deus. Diferentemente do dono do estabelecimento que precisa de dinheiro para vender seus produtos veja o que Deus diz: O vós, todos os que tendes sede, vinde às águas, e os que não tendes dinheiro, vinde, comprai, e comei; sim, vinde, comprai, sem dinheiro e sem preço, vinho e leite. Isaías 55:1. Não se culpe por ser pobre!

Nenhum comentário:

Related Posts with Thumbnails