A religião de Marina Silva importa na eleição?

Qual é o peso da religião (tanto a do candidato quanto a dos eleitores) em uma eleição? A julgar pela disputa dos partidos por apoios de lideranças religiosas e pelo alarido que provocam as convicções religiosas (ou ateístas) de tal ou qual candidato, religião parece ser, por vezes, determinante do sucesso ou fracasso eleitoral. Essa pergunta tem sido importante para a candidatura Marina Silva. Especialmente porque, em temas polêmicos, ela costuma se pautar pela doutrina da Assembleia de Deus. A campanha e simpatizantes temem que ela afugente eleitores jovens e urbanos quando se diz contrária ao casamento gay. E que ela afaste os evangélicos ao defender a união civil de homossexuais.
Marina já se queixou de estar sendo taxada de fundamentalista e radical. O presidente do PV, Luiz França Penna, diz que Marina tem sido alvo de “perguntas inimigas” quando se fala em aborto e homossexualidade. Para saber se a polêmica religiosa tem-na prejudicado nas urnas, fui olhar as pesquisas. O Instituto Datafolha tem perguntado em suas sondagens eleitorais a religião dos respondentes. Em maio, Marina Silva era a preferida de 27% dos espíritas. O desempenho dela entre o grupo era muito melhor do que entre católicos (10%), evangélicos não pentecostais (14%) e evangélicos pentecostais (13%), em que estão seus irmãos de fé da Assembleia de Deus. Ressalte-se que o tamanho das amostras é diferente. Os espíritas representam menos de 3% dos pesquisados, enquanto os evangélicos são 25% deles. Ainda assim, os dados são significativos.
Na última pesquisa Datafolha, no começo de julho, Marina sofreu queda entre os espíritas. Ainda assim, seu desempenho entre eles não vai mal. Ela obtém 13% das intenções de voto entre os kardecistas, o mesmo percentual que obteve junto aos evangélicos pentecostais e não pentecostais. Entre os católicos, 8%. A surpresa fica por conta dos sem religião: 18% deles preferem Marina (em maio eram 12%).
O que explica o bom desempenho de Marina entre eleitores espíritas e sem religião que são, em tese, antagônicos à religião da candidata? A resposta é que, apesar do alarme feito em torno da questão, religião não ganhou importância no pleito até agora. O recorte por religião nas intenções de voto apenas confirma o perfil socio-econômico dos eleitores que tendem a votar em Marina. Como já falei antes, os eleitores de Marina são pessoas urbanas, escolarizadas e de renda alta. É o mesmo perfil sócio-econômico de espíritas e sem religião, de acordo com o Estudo Eleitoral Brasileiro (ESEB) feito em 2002. Segundo o ESEB, os espíritas e sem religião compõe o grupo de pessoas com renda mais alta no país: 36,7% dos kardecistas e 14,9% dos sem religião recebem mais de seis salários mínimos por mês, enquanto católicos e evangélicos na mesma faixa de renda não ultrapassam 10%. São também os que têm mais anos de escola (24% dos espíritas e 9% dos sem religião concluíram o ensino superior, enquanto apenas 5% dos evangélicos terminaram o terceiro grau), além de serem aqueles com mais acesso a fontes de informação, como jornais e revistas (22% dos espíritas e 12% dos sem religião dizem ler com freqüência, contra 7% dos evangélicos).
A conclusão é que o rótulo de evangélica extremista não colou em Marina. “Mas se colar, Marina terá prejuízos na urna”, afirma o cientista político Tiago Borges, que pesquisa a interação entre religião e política na Universidade de São Paulo. “Em eleições majoritárias, como a presidencial, o candidato tem que conquistar os públicos mais distintos possível. Então se Marina aparecer como representante de apenas um grupo, perde automaticamente os grupos antagônicos a ele”, diz ele. Borges acredita que em algum momento Marina terá que optar por um dos dois lados: os evangélicos, um grupo mais conservador, ou os urbanos escolarizados, mais liberais. “Talvez seja melhor optar pelo segundo grupo porque ela já tem mais aderência entre esse público”, diz Borges. “E os evangélicos têm uma outra característica. Eles gostam de apoiar aqueles que têm chance de ganhar. Se acharem que Marina não tem chance, não votarão nela. Ainda que ela adote uma postura de ser representante deles”.

Da revista Época
Mariana Sanches
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